Não é exagerado afirmar que o caráter notável do grande pensador na história e dentro das mais diversas linhas de pensamento se deu a princípio por sua capacidade de questionar e se opor aos paradigmas cognitivos estabelecidos no seu tempo. É fato que a divisão pedagógica meramente disciplinar a que a existência foi condicionada, não corrobora com a concepção real da mesma, ou seja, a concepção de que a realidade da existência é holística, uma totalidade interligada.
O fato é que, todos os campos do conhecimento divididos para fins de compreensão, foram submetidos ao questionamento dos seus respectivos construtores. Da visão materialista da natureza até a visão da humanidade em um caráter social, até mesmo da relação entre as duas, a construção dos seus respectivos paradigmas foram um resultado de uma intensa análise mediante a insuficiência que esses modelos teóricos de conhecimentos foram apresentados. E essa análise sempre se deu pela necessidade de aperfeiçoamento, ou pela necessidade de resolução de um novo problema a qual aquele modelo se apresentava insuficiente, seguido de uma insatisfação do pensador em relação à teoria em sua completude.
Diante dessa visão de como a ciência é construída, com base na discussão, é notório e admissível ainda hoje ter como fundamento esse método de aperfeiçoamento do conhecimento, ou seja, aproveitando a insatisfação do pensador. A instituição responsável pela formalização desse caráter insatisfatório, que fundamenta esse instinto humano, demasiadamente humano pela busca da ordem, é a escola; é a escola numa concepção geral de academia, escola primária, escola preparatória para universidade, e por fim, a “universidade”. De todas as classes de escola citadas acima, a universidade tem função direta na formação dessa formalização do pensamento no indivíduo, simplesmente por que, as escolas que antecedem a universidade, são escolas que possuem o dever de formação intelectual básica, mas geral, não só em relação ao acúmulo de conhecimento, mas também em relação ao aperfeiçoamento da ética e da moral a que indivíduo foi submetido no seu lar patriarcal, justamente para que a possibilidade de socialização posterior a essa formação seja mais potencializada, e a sociedade goze desse aperfeiçoamento moral e ético, além da formação intelectual necessária.
Quando as bases dos modelos educacionais – modelos dos mais variados, cujos responsáveis são os pedagogos – são vistos na literatura publicada e em belas construções com roupagens filosóficas, contemplamos a beleza de uma realidade que só existe dentro do próprio modelo educacional em si, pois na prática, os fatos ocorrentes são bem diferentes. O caráter instintivamente insatisfatório do estudante universitário, não é benquisto em todos os campos de estudo; mas é comum encontrarmos professores da grande área das humanas instigando seus alunos a questioná-lo, a questionarem-se, e a questionar os modelos propostos pelos seus construtores que um dia questionaram seus mestres. Claro que há exceções, porém, é notório encontrar nos mestres das humanas a crença na potencialidade de seus discípulos, justamente por que a participação deles na lida humana da sociedade será de forma mais direta, e esses profissionais, mais classicamente chamados de pensadores, precisam estar aptos às mais variadas adversidades encontradas na dinâmica social.
O interessante é que, os cientistas responsáveis pela especulação da natureza material não se comportam da mesma forma, apesar de ostentarem um caráter “pensadorial” estranho. Mas aqui só me proponho a descrever essa questão dentro dos níveis acadêmicos de forma simplória, ou seja, sem levar a questão a níveis mais avançados e epistemológicos.
O estudante universitário do “vaidoso” e grande campo das exatas se depara com uma realidade diferente em relação aos estudantes das humanas. A causa disso? A exatidão pedante do cientificismo seguida da vaidade dos títulos acadêmicos. A concepção de que a formação do pensador é o alvo primário da universidade se subjuga aos títulos e a uma idéia de desmoralização diante do questionamento e da insatisfação do estudante que é um “aspirante a pensador”.
Estudante bom é “aluno” calado sim. Nas exatas! E por que Estudante bom não é “estudante calado”? Por causa da etimologia da palavra. Aluno é o termo mais adequado para classificar os “sem luz”. Aluno vem do grego, a – negação, luno – luz, sem luz. O aluno deve estar impossibilitado de questionar, de ficar insatisfeito; ele deve estar satisfeito sim, mas a todas as situações a que é submetido durante a sua formação, para que a intenção dos doutores seja camuflada com o ilusório argumento do caráter exato desse campo de especulação. O princípio da insatisfação ante o modelo proposto, corroborando com o que é de fato o modelo em si, é negado simplesmente por que a insatisfação apresentada pelo aspirante a pensador, o “estudante aluno”, ofende e confronta não o modelo em si, nem muito menos ao autor do modelo, mas ofende o apresentador do modelo; ou será que é uma afronta ao título do apresentador do modelo?
É lamentável essa realidade dentro dos meios acadêmicos, levando em consideração que não é uma realidade
A ciência precisa avançar, o conhecimento precisa crescer, e não há outra via de acesso a esse crescimento se não por intermédio do questionamento, fruto da insatisfação, e causa da imortalidade conceitual de homens que ousaram assumir o incômodo causado por uma ciência que tendenciosamente ia se condicionando a um dogma, condicionamento que era um resultado de muitas vaidades acadêmicas.
“Eu não colocaria minha mão no fogo para defender uma idéia, mas colocaria minha mão no fogo para ter o direito de mudar de idéia quantas vezes eu quisesse”
Friedrich Nietzche
0 comentários:
Postar um comentário