Estudante bom é aluno calado

segunda-feira, 24 de agosto de 2009 | |

Não é exagerado afirmar que o caráter notável do grande pensador na história e dentro das mais diversas linhas de pensamento se deu a princípio por sua capacidade de questionar e se opor aos paradigmas cognitivos estabelecidos no seu tempo. É fato que a divisão pedagógica meramente disciplinar a que a existência foi condicionada, não corrobora com a concepção real da mesma, ou seja, a concepção de que a realidade da existência é holística, uma totalidade interligada.

O fato é que, todos os campos do conhecimento divididos para fins de compreensão, foram submetidos ao questionamento dos seus respectivos construtores. Da visão materialista da natureza até a visão da humanidade em um caráter social, até mesmo da relação entre as duas, a construção dos seus respectivos paradigmas foram um resultado de uma intensa análise mediante a insuficiência que esses modelos teóricos de conhecimentos foram apresentados. E essa análise sempre se deu pela necessidade de aperfeiçoamento, ou pela necessidade de resolução de um novo problema a qual aquele modelo se apresentava insuficiente, seguido de uma insatisfação do pensador em relação à teoria em sua completude.

Diante dessa visão de como a ciência é construída, com base na discussão, é notório e admissível ainda hoje ter como fundamento esse método de aperfeiçoamento do conhecimento, ou seja, aproveitando a insatisfação do pensador. A instituição responsável pela formalização desse caráter insatisfatório, que fundamenta esse instinto humano, demasiadamente humano pela busca da ordem, é a escola; é a escola numa concepção geral de academia, escola primária, escola preparatória para universidade, e por fim, a “universidade”. De todas as classes de escola citadas acima, a universidade tem função direta na formação dessa formalização do pensamento no indivíduo, simplesmente por que, as escolas que antecedem a universidade, são escolas que possuem o dever de formação intelectual básica, mas geral, não só em relação ao acúmulo de conhecimento, mas também em relação ao aperfeiçoamento da ética e da moral a que indivíduo foi submetido no seu lar patriarcal, justamente para que a possibilidade de socialização posterior a essa formação seja mais potencializada, e a sociedade goze desse aperfeiçoamento moral e ético, além da formação intelectual necessária.

Quando as bases dos modelos educacionais – modelos dos mais variados, cujos responsáveis são os pedagogos – são vistos na literatura publicada e em belas construções com roupagens filosóficas, contemplamos a beleza de uma realidade que só existe dentro do próprio modelo educacional em si, pois na prática, os fatos ocorrentes são bem diferentes. O caráter instintivamente insatisfatório do estudante universitário, não é benquisto em todos os campos de estudo; mas é comum encontrarmos professores da grande área das humanas instigando seus alunos a questioná-lo, a questionarem-se, e a questionar os modelos propostos pelos seus construtores que um dia questionaram seus mestres. Claro que há exceções, porém, é notório encontrar nos mestres das humanas a crença na potencialidade de seus discípulos, justamente por que a participação deles na lida humana da sociedade será de forma mais direta, e esses profissionais, mais classicamente chamados de pensadores, precisam estar aptos às mais variadas adversidades encontradas na dinâmica social.

O interessante é que, os cientistas responsáveis pela especulação da natureza material não se comportam da mesma forma, apesar de ostentarem um caráter “pensadorial” estranho. Mas aqui só me proponho a descrever essa questão dentro dos níveis acadêmicos de forma simplória, ou seja, sem levar a questão a níveis mais avançados e epistemológicos.

O estudante universitário do “vaidoso” e grande campo das exatas se depara com uma realidade diferente em relação aos estudantes das humanas. A causa disso? A exatidão pedante do cientificismo seguida da vaidade dos títulos acadêmicos. A concepção de que a formação do pensador é o alvo primário da universidade se subjuga aos títulos e a uma idéia de desmoralização diante do questionamento e da insatisfação do estudante que é um “aspirante a pensador”.

Estudante bom é “aluno” calado sim. Nas exatas! E por que Estudante bom não é “estudante calado”? Por causa da etimologia da palavra. Aluno é o termo mais adequado para classificar os “sem luz”. Aluno vem do grego, a – negação, luno – luz, sem luz. O aluno deve estar impossibilitado de questionar, de ficar insatisfeito; ele deve estar satisfeito sim, mas a todas as situações a que é submetido durante a sua formação, para que a intenção dos doutores seja camuflada com o ilusório argumento do caráter exato desse campo de especulação. O princípio da insatisfação ante o modelo proposto, corroborando com o que é de fato o modelo em si, é negado simplesmente por que a insatisfação apresentada pelo aspirante a pensador, o “estudante aluno”, ofende e confronta não o modelo em si, nem muito menos ao autor do modelo, mas ofende o apresentador do modelo; ou será que é uma afronta ao título do apresentador do modelo?

É lamentável essa realidade dentro dos meios acadêmicos, levando em consideração que não é uma realidade em todos. Talvez não haja uma compreensão por parte dos professores doutores de que muitos estudantes questionam por causa da visão de insuficiência da ciência, que quando não adotada, é o mesmo princípio atribuído a um dogma, e no fim, não é errado atribuir a essa prática o título de fundamentalismo. Os mestres acadêmicos se limitam ao pressuposto de que o estudante questionador esteja tentando evidenciar alguma fraqueza na sua formação intelectual, e consequentemente, tornar o mestre indigno do título a ele atribuído e por ele conquistado.

A ciência precisa avançar, o conhecimento precisa crescer, e não há outra via de acesso a esse crescimento se não por intermédio do questionamento, fruto da insatisfação, e causa da imortalidade conceitual de homens que ousaram assumir o incômodo causado por uma ciência que tendenciosamente ia se condicionando a um dogma, condicionamento que era um resultado de muitas vaidades acadêmicas.

“Eu não colocaria minha mão no fogo para defender uma idéia, mas colocaria minha mão no fogo para ter o direito de mudar de idéia quantas vezes eu quisesse”

Friedrich Nietzche